Capítulo XVII - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 11h41

- Até onde eu sei, morri. Mas por que aqui? E por que você?
- Certa, morreu. Aqui é o lugar que você imaginou antes de o navio emergir. Eu sou apenas um. Não precisa saber mais. Seria melhor.
- Seria? Por que não, será?
- O que você tanto busca com o silêncio?
Calou-se, como ele também. Olhou para o lago, tentando imaginar como tudo acontecera, a história era dela, deveria saber. ‘Eu apenas estudava, e estudava um pouco mais. Senti vontade de liberdade, sai com meu guarda-chuva, encontrara este ao lado meu, pela primeira vez, mas depois? Ele sumira, e eu voltara para casa. Não. Claro, eu não voltei para casa. Fui até onde as vestes vermelhas simplesmente estavam ao chão, levantei-as e encontrei um passaporte, não pensei em meu amor, não pensei em meus pais. Absolutamente não pensei em nada mais, a não ser ir até onde este navio se encontrava. Lá embarquei toda feliz, sem bagagem e sem destino. Não me sinto arrependida, apesar de tamanha imprudência. Sensação melhor, de toda vida minha. ' Era mata que dava seqüência a terra. Grandes árvores, pequenos arbustos. Ana resolveu levantar e ver onde aquilo tudo dava. Que caminho levava, ergueu-se, aquele tinha nome? ‘Possui nome?' E obtivera a seguinte resposta, ‘Não, como aqui ninguém possui, nem você. ' ‘Ser irritante, tenho nome, se refira a mim como Ana'.
E seguiu. Mas uma mão segurou a sua fortemente. ‘ Não vá, Ana! Você não tem minha proteção dentro da floresta. Demorou a perceber que eu sou protetor de você? Você não atingiu idade suficiente para cometer um grande pecado, se caso fosse, deixaria você entrar. Mas não. '
‘Como pode você me proteger se foi quem me mandou para este lugar? Você me deixou a passagem, tal protetor', ‘São testes que damos a nossos protegidos, foi um entre tantos que já fiz a você, mas não foi prudente, porém corajosa, ninguém faria o que tu fizeste minha cara. '
Sentiu um enorme vazio, assim que ouvira tudo. Como fazia para mudar o que não queria viver. Tinha vontade de rasgar a própria pele, e de correr dali, mas não se mexeu. Nem ao menos soltou da mão do protetor. Apenas queria um abraço.
O abraçou, e chorou muito. Esse vazio, que a preenchia, era a mais insana vontade de chorar.
Sem jeito, voltou a sentar-se. Ele sentou também, desde já, o chamaria de Prote. ‘ Chamo-te Prote agora.' Ele com seu olhar sem brilho algum a olhou, ‘ Você realmente, não desiste'. Tinha senso de humor, apensar de um olhar seco, como ela queria saber de onde viera, e o que escondia por detrás das vestes sempre vermelhas.
E permaneceram ali, por tempo indeterminando, mas o ambiente não mudava. Em nada se alterava, tudo era claro como um dia de sol. A não ser por essa floresta em que a luz, parecia nunca adentrar as folhas, nem os arbustos, e com certeza os seres que ali se escondiam.



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Capítulo XVI - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 20h56

Ela não conseguia compreender toda a história que até agora vivia. Tudo aconteceu realmente? Ou na morte nada muda? Apenas as pessoas que amamos são afastadas de nós?
Estava confusa demais. Aquele beijo tornou-se o mais longo de sua não-vida. Mas logo, tudo aquilo acabaria. E os recados? Ilusões da morte?
Depois do beijo, Ana fora sugada pelo vento, ela não sentia mais seu corpo, não sentia cheiro, nem ouvia sons. Estava no nada havia se tornado o nada. O incrível, é que ela continuava sentindo seu coração bater. A angústia ainda a dominava.
- Eu nunca mais verei aqueles que amo?
Quatro dias depois da morte de Ana, um fato estranho ocorrera na casa dele. Foi como se sentisse a presença dela, quando fora até a caixa de correio e encontrara uma fotografia de Ana, com aquele turbante colorido, usado como faixa em seus cabelos cacheados negros, que desciam até o ombro. Havia voltado para casa, da faculdade, depois do doloroso fato e não conseguia mais fazer nada. Executar sua tão sonhada profissão de arquiteto. Aquilo fora um beijo? Sentiu até mesmo, o perfume de pêssego e ginseng de Ana. Depois um forte vento, que começou a rodear todo o casarão. Aquele vento forte fez lágrimas caírem de seu rosto, como se o ar em movimento entrasse em suas entranhas e o fizesse viver, os momentos que não o faziam esquecer-se dela, novamente.
Ele voltara a acreditar em Deus. Mesmo depois disso.
- Onde eu estou?
Ana se sentia reconfortada onde estava, porém não reconhecia. ‘Será outro país? Mas como, se estou morta? Oi, quem é você?' Alguém chegava perto de dela. De casaco vermelho; ‘Esperai um pouco, é o mesmo ou a mesma, da história nos bolsos!', finalmente deu-se conta que depois do encontro com as vestes vermelhas tudo isso teve início. Essa história mirabolante. Tomou-se conta de que finalmente voltava à forma humana, porém em lugar nenhum, já que nunca havia estado ali antes. ‘Finalmente descobriu que está morta Ana, já não era sem tempo', dissera sem cerimônia nenhuma, mostrando seu rosto magro, um contraste com o dela que era um tanto quanto gorducho. Devia ser pelas horas, debruçada em sua cama, lendo e lendo, e mastigando sempre que a vontade de comer lhe batesse a porta.
Ana sentia suas pernas tremerem, e se arrepiava toda, porém, não era frio. Estava claro como dia, imaginara até que a morte seria algo ruim, mas até agora, o fato de os corações estarem longe era realmente a pior situação. Estava sentada, com a mesma roupa, que estava à frente da casa Dele, calça jeans, uma camiseta branca com a inscrição: EU SEI, em letras garrafais, e logo abaixo, com letras miudinhas, nada sobre este mundo. Estava descalça, e nem se importava com isso, sentia-se simplesmente bem. Era um lago. Terra pura para segura-lo. E lá estava sentada com se estivesse ali há muito tempo, até o momento em que o sujeito, distinguiu que era um homem, sentasse ao lado seu.



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XV Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 14h00

Continuou olhando a casa, antes berrante cor, agora que seus olhos se habituavam apenas uma cor forte. Com sua beleza. Ela tentou conter a vontade de atravessar aquela cerca antiga de madeira, e bater na grande porta central. Aquele casarão poderia ter sido um belo palácio há 50 anos. A velha casa dele. Ele morava com a avó. Seus pais deixaram essa história, logo no começo, em uma viagem de pesquisa para a Cordilheira dos Alpes, onde viam de perto os efeitos nocivos do carbono na atmosfera, uma morte pelo bem da humanidade. Haviam ganhado prêmio em anos anteriores pela descoberta de que existe um gás nobre que é capaz de desintegrar o carbono, principal agente causador do aquecimento da terra. Isso acontece enquanto ele possui apenas seis anos. E num belo dia enquanto sua avó o preparava para a escola, receberam um telefonema. A notícia. Agora seria somente ele, e a já idosa avó.
Será que D. Célia, ainda morava ali? Será que não abandonara a casa, depois de tudo isso?Ana estava prestes a descobrir, pois diante da porta, bateu.
Nada. Bateu novamente. Ela nunca saberia se aquele foi um ruído de ‘entre’, ou se a porta rangeu e abriu com a força distribuída da sua mão, até a madeira da porta.
- Alguém? Dona Célia? Sou a Ana, a senhora lembra-se de mim? Olá?! Alguém?!
Nada. De repente foi como se a casa voltasse a ser novamente o que era por dentro. Os móveis a pouco velhos e rasgados, agora estavam novos, como se fosse ao dia em que haviam sido comprados. O ar, a luz, tudo mudara. No minuto seguinte, Ele estava diante dela. Perfeito. Sem nenhum arranhão. Ele vinha do andar de cima. Estava como no último dia que Ana o vira. Ela sentiu vontade chorar. Mas apenas correu em direção a ele. O olhou no fundo dos olhos, ele ligeiramente olhou profundamente para ela, porém foi como se não a percebesse, ele estava com os olhos vermelhos inchados, chorara. Mas antes que Ana pronunciasse uma só palavra; ele, como uma sombra, passou por ela. Ultrapassou-a. Sem nenhum abraço ocorrer. Porém ela sentiu que não era ele o fantasma. E sim ela.
Ela não vivia mais? Era isso? Saiu dali. Correu para fora. Quando notou que fora, acontecia o mesmo. A luz era intensa o ar pesado, como se ali fosse uma área em que ela não devesse viver. Ele saiu. Andava na direção em que Ana estava. Quando parou diante dela, suspirou, e seus olhos encheram-se de lágrimas, era a direção da caixa de correio, era isso. Ele novamente ultrapassou-a, e tirou as cartas que havia. Foi passando uma a uma, de uma mão para outra. Quando se deparou com a foto Dela. Objeto sim. O corpo não. Ele conseguiu ver a foto. Ana gritou o chamou pelo nome. Nesse momento, fez-se uma ponte entre os vivos e os mortos. Ele a viu. Ela o viu. As cores voltaram para seu corpo. Abraço. Beijo. Sem palavras apenas olhares.
Agora ela sabia que quem não mais habitava o mundo dos vivos era ela.



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XIV Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 20h42
Ficou absolutamente sem ação, obtusa, inútil. Quando se deparou com a resposta do e-mail, do tal. Que agora já não era desconhecido:
- Ana, eu sei que encontrou uma caixinha, em seu camarim, depois daquela bela atuação de nós. Gosto tanto de lembrar, de seu calor. De sua aura. Da emoção, que sentimos enquanto passávamos por dois desconhecidos, na história que acabava sendo a nossa. Você não tem a chave, porque não queria que tivesse. Eu acredito que você precisa passar por caminhos antes de eu poder se tornar dona dela. Não estou sendo Deus, nem estou querendo ser. Não entende que a nossa história ainda não acabou? E nunca vai acabar. Meu sentimento é infinito. Sem tempos, mitos e costumes. E será sempre assim. Não me faça mais perguntas tolas. Sei que sou aquele que ainda ama.
Eternamente A.
Ela se tornara a carta da manga de um fantasma?
Ela não respondeu o e-mail. Deixou por assim ficar. Dormiu. A manhã seguinte seria Sábado. Ela não pretendia ficar em casa. E não ficou. Saiu logo cedo, sem destino. Avisou seus pais, que não se preocuparam, pois ela sempre ia à casa da melhor amiga aos sábados. Porém neste, ela não foi.
Era uma vila calma. Ninguém na rua, apenas alguns cães que paravam mais fora do que dentro de suas casinhas, passeavam pelas ruelas, que mal tinham espaços para carros, mas ali não havia perigo, carros passavam raramente. E Ana poderia correr andar no meio da rua se quisesse. Era como voltar no tempo. As únicas coisas que se movimentavam eram as roupas de varais improvisados, frente a algumas casas. Era tão familiar, e ao mesmo tempo tão estranho estar ali. Tinha a impressão de já ter estado muitas vezes neste vilarejo, um pouco distante de sua casa, passava por um campo, consideravelmente grande. Mas não sentiu o tempo passar, precisava caminhar. Pensar. O dia estava tão bonito quanto o céu azul que encobria o firmamento. Ela trajava roupas leves. O clima estava quente, porém fresco.
Enquanto caminhava, sentia a brisa bater em seu rosto, como uma música, que a rodeava depois a deixava dançar só. Estava completamente sozinha. Ela e esse som produzido pelo vento. Ou pela brisa, seja lá o que for a deixou sem fôlego. E resolveu parar, sentou em frente a uma casa de uma cor berrante, não saberia definir se um tom mais vermelho ou laranja, porém o velho casarão tinha suas peculiaridades. Antes de sentar-se em uma velha pedra em frente à cerca de madeira, que aparentava ser muito antiga, ela olhou de ponto a ponto a casa. Tinha dois andares. Duas janelas, e uma varanda no primeiro, e na parte de baixo, apenas uma enorme porta, cheia de detalhes. Quando finalmente sentou. Observou que alguém vinha em sua direção, não necessariamente para ficar ao seu lado, mas parecia que queria algo com ela. Quem sabe conversar. Sentiu uma pontada de medo, quando viu. Era simplesmente, o carteiro. Que com um semblante demonstrando estar atarefado com seu serviço, nem notara Ana. Apenas a olhou para perguntar se era a Dona da casa, ela respondera em negativa, então ele deixara as cartas na caixa de correio do berrante casarão. E seguiu. Ana virou o rosto ligeiramente para o lado oposto ao do moço das cartas, e quando olho de volta para ele, já estava distante, porém havia um papel caído no chão, provavelmente, seria alguma carta, que ele sem querer deixara cair. Ela levantou-se, e por um momento, não queria ver o que era. Sentiu ódio de sua curiosidade, que mais parecia afetar sua alma, do que sua mente. Não era uma carta. Uma fotografia, inacreditavelmente, dela em frente a casa. Não poderia ser real. Não fizera nem cinco minutos que estava ali. E era exatamente como ela estava, sentada na pedra, olhando para o nada, ou para o lado, como se existisse alguém ali, com quem conversava? Porém na foto não aparecia ninguém. Mas seu corpo gesticulava. Havia alguém em seu lado. E poderia estar ainda. Sentou novamente. Ninguém mais passou pela rua. E ficou olhando para um espaço vazio, por muito tempo. Imaginara se poderia falar com ele se estivesse ali.
Não havia ninguém, nem que forçasse sua visão. Nada. Tinha guardado a fotografia em sua bolsa, a qual deixara em seu colo, enquanto sentara. Tirou-a e começou a fitar novamente. Quando finalmente viu, que não olhava para seu lado. E sim na direção em que o carteiro caminhava. Estava ficando de repente, paranóica. Deveria ser isso que ele queria que acontecesse. E logo isso fora obra dele novamente. Ele sabia muito bem, que ela odiava quando queria se tornar mais esperto que ela. Fazendo coisas deste gênero. Brincando com ela. Mas algo lhe ocorreu, por que ela não havia visto o lado oposto da fotografia? Olhou. Finalmente os fatos das situações começaram a se encaixar.
- Lembra desta casa? Quando éramos pequenos, as primeiras vezes que nos vimos.
Apenas isso. Claro. A casa dele era ali. O velho casarão que ele deixara quando fora para faculdade. Há tantos anos. Ela levantou-se olhou novamente a casa. Deixou sua fotografia na caixa de correio.


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XIII Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 12h43
Estava pronto. Bastava um clique. Um botão ENVIAR para mudar completamente sua história. A que vivia até agora; e não aquela que ele escrevia em outro mundo. Ana conseguira sobreviver até então, porque estava em um estado mental ‘vegetativo ‘, não gostava de pensar no que havia passado, ou vivido, muito embora, isso continuasse em seu inconsciente, e por conseqüência em seus sonhos. O qual quase nunca se lembra. Fazia questão de tal. O esquecimento era uma palavra que ela punha em prática, desde a queda dolorosa, de um Boeing. Ficara imóvel no momento que recebera a notícia, as lágrimas naquele momento não caiam apenas um sentimento, que aos poucos enterrado, para nunca mais ser cultivado. Buscava a liberdade, deste sentimento. Mas o que parecida nunca estar pronto. Um sentimento maduro poderia ser facilmente acabado? Nunca saberia seu sentimento precoce, não chegara a este estado.
Chegara a casa, depois da apresentação teatral. Fora direto para seu refúgio. Acendeu a luz de seu quarto, ligou a parte vital de seu quarto, depois das fotografias dele. O computador demorava alguns minutos para iniciar, guardou a caixinha misteriosa. Sentou em frente à máquina. Escrevera um e-mail, para um desconhecido, que ultimamente vinha se comunicando com ela. Seria ele? Não poderia, dizia:
- A saudade que sinto, é tão imensa que não poderei tomar todo o espaço destas letras com ela. Amor, já sabe que escrevo para ti. O tempo todo deste além que me resta de morte. Escrevi isso há um tempo. Eu escrevo, acontece aí. Mas você não deve ter se dado conta disso. Sei que tenta esquecer. Mas eu já desisti. Não quero esquecer, estar longe de você já me basta. Não lembro mais como me chamo. E nem de seu nome. Mas nossa compatibilidade estava até nisso. É o que me recordo, nossos nomes eram parecidos. Por favor, escreva seu nome e o meu, em nossas fotos. Escreva quantas vezes necessárias, eu não quero me esquecer, e você não tem o direito de querer isso. Não de mim, mas... De você...
Ela respondera:
- Não consigo, e não vou desistir. Se lembrar de você me faz sofrer, é melhor que esqueça. Você não compreende? De repente eu respondo algo que com certeza deve ser uma brincadeira que insistem em fazer comigo. Para alguém que já morreu. Não escreverei seu nome, mas o meu será até o dia que encontrarei você: Ana. Você não é Deus para escrever o que acontece. Só acreditarei vendo. Eu gostaria de saber, se realmente é você, o que eu encontrei hoje? E o que eu preciso para poder abrir?
Ana ficara incoerente de um modo, que ele jamais vira. O sofrimento fazia isso com as pessoas, às faziam subir um degrau a mais na escada das decepções.
Mas ele já sabia que isso acontecia, queria que isso acontecesse. O amor deixava os possuidores dele, como seu próprio Deus, que a todo o momento estão no comando. Não das situações, mas das ações. Descobrira isso depois que não sentia mais o aroma dela.
Ele carregava a chave desde que estava no avião. Não a tirara, apenas quando escrevia, para que seu coração libertasse tudo que estava trancafiado.


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XII Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 19h10
O grande dia chegara. Como ela prevera estava tão ansiosa quanto apreensiva. Precisava existir um furação em seu ventre? Não havia borboletas, somente ventos. Era uma sensação que jamais sentira. O público estava lá, muitas mentes, tantos pensamentos. Jamais sentia vergonha. Era algo que Ana nem sabia como se fazia para sentir. Acontecia apenas à ansiedade, a espera, isso era tão doloroso. Mas era bom sentir-se assim, a tal ponto para parecer que seus olhos saltavam pelas órbitas... Vida e Morte. Aceitara fazer parte desta peça. Simplesmente porque queria sentir a emoção de estar à frente de todos. Eram três, três mortes, que ocorriam por fatos que já estamos acostumados a saber. Porém, Ana sentia-se completa, quando estava lá. Naquela personagem, que dela, não possui nada, apenas o corpo. Era como se o espírito, fosse de outro ser, que a dominasse por aquele determinado tempo. Como se fosse algo que a completasse, que sentia falta a muito. Como se houvesse escapado de sua existência, e agora voltava ao lugar original. Apenas da Morte, era algo que renascia dentro de si.
Aquele palco era uma espécie de refúgio, muito embora nunca houvesse estado ali; e por alguns grãos de tempo, toda sua história fosse apagada. E de nada lembrava, apenas de estar a encenar algo que nunca acontecera consigo. Mas fazia como que todos acreditassem que sim. Tudo o que encenava e contava acontecera a ela. Uma realidade inventada. Só dela, e a partir daquele momento de dezenas de olhares.
Podia se sentir como quisesse aquele tempo era dela. E de mais ninguém. Mas não conseguia se sentir só, e não somente pelo fato de que estava diante de muitos, mas porque havia calor ao redor de seu corpo, como se existisse a presença de algo. Alguém. Imaterializado no ar, já que nada via. Sentia apenas.
Aquilo era forte. Que a fazia correr, por incrível fazia parte da peça, do repertório. A correr, e a gritar e de repente cair, para a morte chegar. Mas não. Ouvia aplausos, e em seguida mais aplausos. Eram por alguns segundos, incansáveis, mas logo iam sumindo aos poucos. E a adrenalina também, escorria pelas falhas que vira que cometera. Falhas? Aquelas que a faziam tornar-se diferente? Ou aquelas em que ela costumava buscar olhares para, por fim, encontrar segurança o bastante para continuar?
Era isso.
Estava enlouquecendo tentando entender a presença que a seguira por toda a peça. Foi até o camarim, soltou um grande suspiro, sentou em uma cadeira que estava logo à frente do espelho, olhava seu rosto, seus ombros. Seu busto. E parou nos olhos. Lá encontrou muitas camadas, como os sentimentos, seus olhos tinham a cor castanho claro, mas naquele momento estavam negros. Como se houvessem partido para outro mundo durante a encenação e não houvesse voltado. A luz estava acesa. Mas se apagou quando Ana chegara mais perto do espelho para observar de perto, seus, agora novos, olhos negros. Estava só. E no escuro repentino, seus olhos ainda brilhavam, como se estivessem vendo algo maravilhoso, que não existisse mais, que até mesmo sentiam falta.
A luz piscava. E logo, todo o camarim estava iluminado novamente. Mas um objeto surgira sobre a prateleira do espelho ao seu lado. Uma caixa pequena. Com uma entrada para uma chave, porém ali não existia chave alguma. Ela se perguntara se quando entrara aquilo estava ali, mas não estava. Desde que chegara, o camarim estava apenas com seu material. Não era tão estranho, porque sabia quem a deixara ali, e quem a seguira na peça. Apenas guardou a pequena caixa em sua bolsa. Trocou-se, arrumou tudo, e saiu. Lá fora, ainda haviam pessoas querendo conversar com ela. Ana imaginara que todos já tivessem ido embora. Ficou por mais algum tempo. Depois foi para casa com sua mãe e seu pai, que assistiram a tudo. A mãe chorara muito, e pai com o semblante satisfeito.
Ela não deu muita importância. Apesar de que isso sempre fora o que esperava, e era tão importante quanto e estada sobre o palco.
A caixa estava sem chave. E ela pensara que nunca conseguiria abrir. Não queria tentar, pois não queria saber o que ali havia. Apenas queria saber quem possuía a tal chave.


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XI Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 17h42
Ele andara muito naquela tarde nublada. Queria andar, para que seus pensamentos seguissem seus passos, andassem, fossem adiante, porém não adiantava, estacionavam na mesma pessoa, nela. Ana. Queria saber o que ela fazia naquele milésimo de segundo. Se pensara nele, tanto quanto pensara sobre ela.  Sempre esteve procurando a entender. O porquê de cada palavra não dita por lábios que diziam tanto, que o hipnotizavam?  Começara a chover, porém ele não deu atenção aos pingos que aos poucos o deixavam encharcado. A chuva parecia aliviar a dor que sentia a perda que conhecia. Poderia ficar assim, pelo restante dos tempos. Nada mais importava. Apenas alguém, que ele acreditara nunca mais poder ver. Seu coração batia tão forte, que parecia querer sair pela boca. A dor voltava novamente, não sabia para onde fugir, o que fazer, gritar, chorar, correr, andar mais e mais. Porém nada fazia com que isso passasse, aliviasse esse sentimento. Nada. Apenas aquela voz, que nunca mais poderia escutar novamente. Nunca. Uma palavra que Ana nunca gostara de pronunciar, e sempre dizia:
-Nunca, diga nunca.
Como ela tinha razão, neste dado momento do tempo. Mas este nunca pareceria tão longo quanto à dor que latejava em seu peito, estilhaçado. Aquele último ano havia sido o pior de toda a sua vida. Sua morte. Sua morte para Ana, a morte de Ana para ele. A famosa queda de um avião Boeing, acabara com a sua e com a vida de seu amor. Porém se ela estivesse ao seu lado, nada seria como era. Os dois viveriam para sempre, neste além da vida. Mas não, Ana estava em outra dimensão, no mesmo mundo. Isso era o que ele não conseguia acreditar, estando tão perto, era o mesmo que sentir o mais longe possível. Cansara-se de vê-la todos os dias deitar-se e soluçar até que algum sonho, pesadelo, ou somente a escuridão viesse e fizesse fechar os olhos, e finalmente descansar.  
Tudo que tentara fazer para se comunicar com ela, desde então, não fizera efeito, sua amiga era mais perceptiva do que ela mesma. Havia feito coisas, que a partir de agora, nunca mais poderia. Ligar? Nunca mais. Somente recados, que era o máximo, para um amor que não cumpriu sua missão.


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X Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 18h26
- Ás vezes eu tenho medo de que você realmente consiga tudo que quer. Transformar-me. Se é que isso ainda não aconteceu.  Fazer-me entrar neste sistema de cópias, umas das outras. Pergunto-me como pode pessoas serem tão iguais umas as outras? Será que não possuem o mínimo de senso crítico? Você nunca conseguirá me tornar como todos e todas. Nunca! Sou estranha. Diferente. O substantivo que quiser me nomear como sujeito anormal. Queria saber o que o faz se tornar tão igual, nem mesmo se tentasse eu conseguiria ser igual a você. Embora tenha certeza de que se você quisesse, conseguiria com sucesso. Sinto ódio de você. Tudo começa a se inverter em algum momento do tempo. As leis da física não explicam, mas as minhas sim.
Cansara-se? Era o que tudo levava Ana a acreditar. Não podia nem sequer lembrar-se da mensagem na caixa postal. Fingir com que o que estivesse acontecendo, na realidade não estava... E será que isso realmente estava ou não acontecendo? Desde o início desta história, Ana não sabia. Apenas a certeza de que o final continuaria não sabendo. Mas algo estaria livre novamente. Algo que fazia tudo valer novamente à pena.
Ana continuara estudando até o final daquela tarde. O dia estava lindo. Nenhuma nuvem no céu. Apenas o azul da imensidão. 
Apenas o azul? Ao passar de alguns segundos. Tudo ficará azul, sua cama, seus livros. Seu guarda-roupa, seu computador. Estava flutuando, nunca saberia definir se estava na horizontal ou na vertical, apenas uma mochila, que não era a sua, nas costas. Nada além do azul, sua roupa continuara sendo a mesma. Sua calça jeans azul, camiseta branca, e seu casaco amarelo. Não conseguia se desesperar, e o movimento era livre, poderia ‘alçar vôo’ para onde bem entendesse. Mas antes precisava ver o que dentro da mochila continha. Mas para que ver o que havia dentro da mochila? Algo iria mudar se fizesse? Poderia muito bem, tirá-la das costas, e deixá-la cair, ao nada, e para o nada. Já que pesava muito. Pensou tanto em abrir a mochila, que o próximo movimento foi quase como involuntário, abriu o zíper da mochila. E de lá tirou muitas fotos. De alguém sozinho. Naquele momento Ana sentiu fome. Continuou a olhar as fotos, eram muitas, e não eram dela. Conhecera o rosto daquele indivíduo de algum lugar; mas suspeitava que não fosse querer lembrar.
Em outra dimensão. Fora deste mundo de Ana, outra pessoa escrevia algo, tão importante quanto toda a história que ela até agora vivia. Parecia que existia alguém que a entendia. E que transformava esse entendimento em forma de um livro. Alguém escrevia sobre Ana. Alguém escrevia para Ana.
Ela cochilara no momento que estava estudando sobre como descobrir a desaceleração de um móvel em movimento, algo simples. Olhou ao seu redor e tudo voltara a ser como antes. Sentiu-se feliz por isso. Mas gostaria de ter as fotografias novamente em suas mãos. Terminou com os estudos de física, e viu que havia muito ainda há estudar; levantou-se da cama, porque sempre estudara deitada. Foi comer. Uma coisa de que Ana gostava: era comer; o que devia aos seus quilos acima do peso. Enquanto mastigava uma bolacha recheada qualquer, que encontrara no armário da cozinha pensava sobre o ‘mini-sonho’, jamais dormira enquanto estudava, e muito menos sonhava em um sono tão curto. Poderia ter ligado para sua melhor amiga, e contado tudo que sua mente pensava, e seu coração sentia. Mas não. Voltou a estudar, como se nada ainda estivesse acontecendo. Nada poderia atrapalhar algo que Ana tanto prezava. Mas que cedo ou tarde, teria de resolver tudo. Um tudo que porventura seria resolvido durante toda a sua vida. Porém, ela nem se dava conta disso.


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IX Capítulo - Deve ser a minha história...
Ana Carolina 21h04
 O telefone toca. Alô? E de repente é como se a inspiração fosse embora. E nunca mais voltasse. Por que alguém havia de ligar a ela agora? Neste exato momento? Era o que se perguntava a cada segundo que posteriormente passava a chegada e a saída tão rápidas quanto à velocidade da luz. Foi-se. Agora era tarde, apenas esperar outro momento oportuno para se fazer outras palavras! Outros pensamentos! 
- Eu realmente já escutei isso antes? Isso não pode ter acontecido comigo. Não me recordo. Como se minhas memórias fossem temporariamente deletadas, e recentemente eu me lembrasse de tudo. Eu sinto que é à hora de mudar, mudar por fora, cansei de dentro, de pensar, de ser super, de uma Ana, que nunca me deixa, e que se deixar eu me acabo. Eu morro. Como posso ser tão dependente de mim mesma? E ser tão independente dos outros?
Ela ouviu uma voz. A voz de alguém que lhe parecia familiar. Mas que não lembrava. Lhe dizia que a conhecia, e que ela também já vira. E que não fazia muito tempo. Apenas meses. Ou melhor, dias ainda. Ana em seguida desligou, ora, falar com alguém tão estranho quanto o modo como falava? Alguém tentou ligar novamente, mas não a tempo de Ana atender. Desligara. Com certeza com medo. Voltando atrás. Arrependimento. Mas quem será que ligava para casas, dizia que precisava conversar pessoalmente com seus moradores sobre mensagens estranhas? A própria mensagem que trazia ligando, era ainda mais estranha sobre o que ele gostaria de falar. Ana ficou com medo. Mas logo achou engraçado. Aquela voz. Ela conhecia. Restava agora, lembrar a quem pertencia. Voltou a estar fazendo, escrevendo, algo no seu computador, somente ela e aquele antigo teclado sabiam de seu conteúdo, e para onde iria parar. Ela tinha tantos segredos. Inúteis para que nunca entenderia. Mas para quem soubesse como usar, seria causador de grandes perigos.
Mas não precisava pensar mais tanto nisso. Aquela voz passou a ser reconhecida por sua memória. Era dele. Codinome A. Nem sabia como, mas esse codinome permanecera por todo o decorrer do ano. O nome já nem era tão lembrado. Que bom que ele ainda lembrava-se dela. Mas deveria ter se identificado. Ás vezes as pessoas não estão sempre alertas aos novos sentimentos. Ou novos pensamentos. Mas o que deveria querer? Os recados eram dele? Ah se ela soubesse. Mas havia muito que fazer nesta tarde. Livros a ler. Conteúdo a estudar. Mas um refúgio havia sido criado com essa ligação. Um refúgio que bastava olha para o nada, e viajar no pensamento. Lembrar.
De repente. Toca novamente o telefone. Mas Ana não o atende. Medo. Cai na caixa postal, e ouve-se uma voz:
- Não sei se teria coragem de falar com a tua voz. É demais pra mim. Demais pra eu conseguir dizer tudo que preciso. Lembra-se da foto preto e branco? Que deve estar no meio do teu fichário, e que você olha no mínimo uma vez por dia? Eu também a tenho aqui comigo. E faço o mesmo que você. Mas de mim caem lágrimas, junto com a saudade. Eu escrevo uma longa história, dedicada totalmente pra você. Não quero que saiba aonde eu estou, o que faço agora. Mas tenha certeza de que dois A’s estarão eternamente gravados naquele banco.
Desligou. Ana correu apagou a mensagem, e fingiu que nada havia acontecido.


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VIII - Deve Ser a Minha História...
Ana Carolina 22h25
 Todo o peso de seu corpo caiu. Sob um colchão, não importava se era bom ou não. Era o seu.  Sua face agradecia ao entrar em contato com a pele macia e aveludada de seu cobertor, e deslizava-se, mal acreditando que havia fechado seus olhos.  Tocava um tambor, e soava uma voz, a respiração corria, tentando alcançar o ritmo do som. Permanecia ali, entre vultos e sombras, mentiras e finalmente sonhos.
 Olhava-se em um espelho, não se reconhecia, via uma boneca de madeira, e olhos de verdade, via fios pregados em seus membros, e um no coração. Sentia-se mover por alguma força que não controlava que não estava em seu poder. Começa uma dança. Primeiro seus pés agitavam-se em um ritmo medieval, seus trajes eram medievais. E seu pensamento também, a cabeça fazia um movimento circular como uma gueixa, não entendia, mas gostava. Era como ver realmente quem era. Porém, houve um momento que seu semblante enrijeceu ficando sério, se é que um rosto de madeira é capaz de tal, passou a cansar. E por um pensamento voador, sentiu vontade de arrebentar, cortar, cordas que a faziam cansar. Isso foi se tornando forte. Um movimento forçado, uma vontade inventada. Até que acabou.
 O despertador do celular tocava às 06h45min, como se fosse para acordar uma nação, e não somente uma menina, que precisava sair de seus sonhos, e ir à escola. Mas não acordou. Nem deixou seus sonhos. Porém de nada adiantou permanecer em sonhos se às 7h: 20min abriu os olhos sobressaltados, pelo atraso, e por não se lembrar do último sonho.  O restante da manhã transcorreu como se ela não devesse ter acordado naquela quarta-feira. Sentia que era um dia em que tudo poderia ocorrer. Uma sensação de Dejà Vú, aquilo já não havia acontecido antes? Almoço. Informática.
 - Ele está no outro lado da rua, na outra calçada. Caminhamos aos mesmos passos, na mesma velocidade. Eu o olho sem parar, e ele nem a notar está. Olhando para o chão desde o começo, sem perceber o que de mim passa para ele. A minha energia. A minha vontade. O meu amor. Nada de fala. Torcia para que uma brisa, o fizesse virar o rosto, olhar-me. Mas isso não acorre, nem ocorrerá; pena de quê...
 Ana andava, como se fosse um robô, que soubesse exatamente aonde ir, não era necessário olhar para frente, e toda sua visão voltava-se para alguém do outro lado da rua.  Alguém que somente ela enxergava.  Ninguém via como ela o via. Ele se distanciava, e o olhar da garota também. E nada mais foi olhado com tanta intensidade, naquele dia.
 - Mentira daquele que diz que não tenho coragem, como pode ter medo de enfrentar alguém sem coragem? Se ao menos eu soubesse quem é este alguém, dono dos recados, que quem sabe devem ser para mim.  Devo estar ficando doida. “Ninguém nunca te mandou nada”, ah, sim claro, então estou inventando coisas. Tantos pensamentos importantes que neste momento deixo de ter por causa tua. Por você. E só por você.
 Em algum outro lugar, sua amiga atendera uma chamada com número bloqueado:
 - Tudo certo sim, Sr. A. Farei com que ela compareça.


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VII - Deve Ser a Minha História...
Ana Carolina 20h43

Estava na aula, em uma vaga aula. Não havia o que fazer, tudo estava pronto. Era o que acreditava. Ana parecia estar distante. Abaixava o cenho, deixando o peso de sua cabeça pairar sobre seus braços, em sua carteira. Continuava pensando a causa de ter encontrado aquele papel na calçada. Ninguém sabia o que ocorria em seu pensamento. Só ela, ou será que era tão transparente, ao ponto de sentirem o que ela estava pensando? Nisso ela acreditava que não. Poderia ser com certeza, um bilhete escrito há décadas, perdido no ar, escrito para alguém com os mesmos anseios e medos... Seria coincidência demais. Tudo se encaixava perfeitamente. Estava cansada de ter um sentimento tão profundo por alguém, e isso jamais ser retribuído, por aquele que é merecedor de tal.  Mas se provavelmente, fosse um bilhete escrito há muitos anos, onde estaria a metade? Deveria existir o restante da palavra pensamento e muito mais dizeres. A questão é que um simples pedaço de papiro, a fez pensar em muita coisa. Muitos sintomas que está sentindo. E voltou a lembrar de idéias antigas, de histórias nos bolsos, teve que rir, quando lembrou de que isso estava aos poucos, indo para dentro de seus bolsos, de sua memória, da sua verdade.

 Cansou de pensar sobre. Ergueu a cabeça novamente. E o restante da turma, estava do mesmo modo, nada foi alterado, desde que abaixara a cabeça há minutos atrás. Mas na carteira onde estava não sabia como, mas havia uma espécie de recado:

- ento... Não adianta pensar que nada se refere a você. Pois tudo é como uma teia de aranha está entrelaçada.  Que perdeu você já sabe. Agora, é saber que espécie de perder você ganhou. Sou quem você ama. Ou odeia. Não desconsidere nada do que digo, apenas pense. Pense neste tempo que você está ganhando ou perdendo, lendo o que eu escrevo, poderia estar fazendo algo. Importante. Você procura problemas. E os problemas são como vírus, esperando um agente hospedeiro para viver à custa. Não estou escrevendo sobre os problemas que você está pensando, e sim sobre problemas deste e desta que estão ao lado seu. Às vezes pára de pensar, e somente aja. Os que te procuram são os que precisam, e os que precisam conseguem sozinhos...E...

 O recado terminava, Ana olhou por toda a sua volta, dando uma volta de 360° em sua cadeira, só poderia ser alguém da sua sala. Mas quem? E como não havia reparado desde o começo da manhã, sendo que era o último período, quase meio-dia, quase voltando para casa? Copiou o que estava no recado em seu fichário. Mostrou-o a sua melhor amiga, que sentava na carteira esquerda, logo ao lado dela. Ficou tão abismada quanto Ana, porém ela sabia, e muito bem o que estava acontecendo. Tudo valia, para mexer com a mente de Ana. O bem, isto que estava prestes a ocorrer. E ficava entusiasmada ao ver Ana atônita.

 - Quando ela souber da verdade, ficará muito feliz. Ou melhor, sua mente ficará finalmente satisfeita.
 Era o que pensava a melhor amiga de Ana. Que sabia de tudo, que quase todos desconheciam da verdade. Mas não havia sido a amiga que escrevera aquilo. E sim alguém que carregava uma chave.



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V Capítulo - Deve Ser a Minha História...
Ana Carolina 20h12
Depois de terminar alguns deveres que haviam sido deixados para as férias de inverno, sua mãe chegara a casa, não se espantara ao ver Ana sentada em frente ao computador, digitando freneticamente, como se escrevesse uma carta ao Presidente.
- Bê, cheguei! Alguém ligou? – Costumava se dirigir a ela como Bê de bebê. Apesar de Ana possuir 15 anos, e mesmo parecer mais velha seria o eterno bebê para sua mãe. Rapidamente se dirigindo em frente à Ana, mas ela nem sequer olhou para o lado, deveria estar brava, sua mãe chegara tarde novamente.
- Não! – Olhou nitidamente para a tela, e continuou a digitar.
Passara o dia todo só. Não que não gostasse de ficar só, já se acostumara. Mas ficar consigo mesma às vezes incomodava. E estava de férias queria sua mãe por perto. Ou alguém que pudesse conversar olhando nos olhos, e sentindo realmente a idéia que um ser passa com sua aura. Seu pai trabalhava o dia todo. E mesmo assim não havia tantos assuntos a falar com o pai, como havia com a mãe.
O que lhe restava era passar dias lendo. Escrevendo. Ouvindo música. E ora ou outra, conversar com sua melhor amiga pelo telefone. Mas aquela velha idéia de mudar ainda não havia a abandonado, mas não passava com tanta intensidade em sua mente, como antes. Sentia-se novamente presa em seu mundo, ela mesma se trancara lá. A chave morava dentro de seu coração, e não sabia se conseguiria abrir seu coração e tirá-la de lá. Ela sempre quis imaginar o mundo como se somente ela o habitasse. Somente ela tivesse estas dúvidas, e pior que somente ela pudesse mudar. Isso veio à tona, em seus pensamentos. Pensar somente, sempre em si mesma. Nunca pensara que ela pensava somente que a Ana poderia mudar, que a Ana é que deveria achar as respostas para tudo. Isso era um individualismo doentio, crescente em sua alma, que única fora desde que nascera.
- Pela primeira vez, eu pensei que não vou conseguir mudar tudo sozinha. Pela primeira vez eu vi que existem pessoas a meu lado, que também estão dispostas a mudar, como eu. Não estou me sentindo trivial diante a tudo, mais simplesmente estou passando a enxergar que a velha união de algo vale. Como não soube antes disso? Mais o futuro é tão difícil de ser desenhado, tão difícil de ser sonhado... A gente pensa tanto, que às vezes não se torna ao menos real. Pelo que eu acreditei, foi sempre como o mundo apenas tivesse volume, quantidade. E há qualidade.



VI Capítulo - Deve ser a Minha História...

- Não foi ele quem perdeu, foi você. Algo em você a faz pensar que fosse a vencedora, mas vencedora de quê? De uma ilusão? Você perdeu porque não soube o que fazer, ou pensar, ficou na famosa ‘sem ação’, engraçado como nunca havia ficado neste estado. Sinto pena de você. Não pelo que você é, mas pelo que está fazendo. Ou o que não está fazendo. Tranca-se em seu mundinho porque não sabe como sair, tem medo de sair, medo de quebrar as regrinhas, medo do que quem sabe irão falar sobre você. Medo, isso o que você tem. Isso queima tua alma, aos poucos, porque esse medo te leva à falta de coragem, a sucessão de olhares que sempre se voltam para você, à espera de uma resposta, de uma saída, que não precisa de alguém pra encontrar, um dever somente teu. E de vosso pensamento.
Em uma espécie de papiro, Ana havia encontrado estes dizeres. Passara um bom tempo sem escrever nas férias, as aulas já haviam voltado. A rotina novamente. Quando voltara para casa da aula de informática, em uma quarta-feira à tarde, encontrou um papel esquisito no chão da calçada, não era um papel atual, era uma papel com letras garrafais acinzentadas pelo tempo, estava dobrado, mas não escapou da visão da garota. Um papiro, logo percebeu. Depois de ler o que havia, muito estava mudando ao seu redor. O papiro estava incompleto, havia um corte, que delimitava a palavra pensamen... E não continuava. Alguém estava brincando com ela?


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